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Ceará pode exportar energia do Brasil em forma de dados com mega projeto de data center

03/06/2026

Estrutura para geração de energia eólica – Foto: Divulgação/Ari Versiani/PAC

A lógica é usar a energia renovável mais barata gerada no Nordeste brasileiro, que ultrapassa em cerca de 150% a demanda local por energia, para gerar cadeias de valor agregado no exterior, com uma espécie de commodity energética baseada em serviços digitais

Fonte: Revista Fórum

A Casa dos Ventos, uma das maiores desenvolvedoras de projetos de energia eólica e renovável do Brasil, está investindo no centro de processamento de dados a ser instalado no Complexo Industrial do Pecém, no Ceará, em parceria com a ByteDance, controladora do TikTok.

O projeto, com aportes estimados em cerca de US$ 200 bilhões, será abastecido pela energia eólica gerada no Nordeste do Brasil, região que concentra até 93% de toda a produção nacional do setor, com mais de 19.000 MW de potência instantânea.

Segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo, a Casa dos Ventos pretende realizar, a partir da planta de processamento, um outro empreendimento: a exportação de eletricidade por meio do processamento de dados e da computação em nuvem.

A lógica é usar a energia renovável mais barata gerada no Nordeste brasileiro, que ultrapassa em cerca de 150% a demanda local, para gerar cadeias de valor agregado no exterior, com uma espécie de commodity energética baseada em serviços digitais.

Nesse modelo, o Brasil exportaria energia em forma de dados processados, ou seja, conectaria seus parques de geração de energia renovável à infraestrutura de serviços dos data centers a fim de usar a capacidade local para processar grandes volumes de dados e exportá-los via uma infraestrutura computacional global.

O data center do TikTok, a ser instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza, contará com potencial de geração eólica avançada (com capacidade instalada de cerca de 2,1 gigawatts), e já tem como vantagem a proximidade de cabos submarinos de conexão com a internet entre América, Europa e Ásia.

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Nordeste concentra a maior parte da expansão da energia eólica brasileira, e o Ceará figura entre os estados líderes em geração renovável. O Brasil é, além disso, um dos dez maiores produtores de energia eólica do mundo.

A primeira fase do empreendimento prevê capacidade de 300 megawatts e investimentos de US$ 10 bilhões. Desse montante, US$ 8 bilhões devem vir de investimentos diretos da ByteDance, enquanto US$ 2 bilhões virão de aportes da Omnia, ligada ao Pátria Investimentos, com participação acionária do conglomerado chinês China-LAC Cooperation Fund.

Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA), centros de dados, criptomoedas e inteligência artificial poderão dobrar seu consumo de eletricidade até o fim da década, o que representa um desafio especialmente para países com baixa capacidade de geração própria, como os do bloco europeu.

Leia mais: Data centers, IA e energia: por que a Europa está ficando para trás na nova disputa tecnológica global – Revista Fórum

Já países com abundância de energia renovável, como o Brasil, passam a ter vantagem competitiva em logística e custos de implantação. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mais de 90% da eletricidade brasileira já vem de fontes renováveis, sobretudo hidrelétrica, eólica e solar.

Apesar disso, é preciso se atentar a potenciais efeitos negativos do “extrativismo econômico” representado por esses centros tecnológicos, que não necessariamente representam expansão de serviços no país de implantação. Enquanto a instalação consome recursos naturais, estimula a captura tecnológica e o desenvolvimento de pesquisa e inovação a partir dos grandes centros.

O governo brasileiro já possui uma iniciativa nacional para incentivar a atração de investimentos em data centers no país: o Redata (PL 278/2026), projeto que prevê a criação de um regime especial de incentivos fiscais voltado à instalação e expansão de centros de processamento.

Hoje, existem no Brasil cerca de 205 data centers em operação, além de 22 pedidos para novas instalações e uma previsão de crescimento de até 11 vezes em quatro anos.

Segundo a Casa dos Ventos, à frente de um dos projetos com maior potencial do Brasil no setor de dados e integrante de uma joint venture com a francesa TotalEnergies — que adquiriu cerca de 34% de seu portfólio —, a empresa projeta atingir 4,3 GW de capacidade operacional até setembro deste ano e alcançar 6,4 GW até 2028.

Se comprovados, os novos números fariam com que a companhia ultrapassasse a italiana Enel entre os maiores grupos privados de geração renovável do país.

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