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O desafio de um modelo exterminador do emprego, por Luís Nassif

24 de abril de 2024

IMAGEM: REPRODUÇÃO

Como o Brasil é um país que não consegue diagnosticar nem problemas do passado, dificilmente começará a discutir os problemas do futuro.

Uma medida crucial – diria, até, histórica – foi tomada ontem com baixíssima repercussão na imprensa. Hoje é capaz que os diários acordem e saiam batendo. Trata-se da decisão do governo de definir cotas para a importação de aço e imposto de importação.

Depois de décadas, é a primeira medida efetiva de proteção à produção nacional, além do imposto de importação para carros elétricos.

Foi pouco, abrangeu poucos produtos, mas quebrou-se o tabu. A produção nacional tem que voltar ao centro das políticas públicas.

Mesmo assim, não resolve o grande dilema da nova fase da industrialização: a geração de empregos. O alerta vem de Daniel Rodrik, um dos grandes economistas contemporâneos.

Ele analisa a atual onda de fabricação de semicondutores nos Estados Unidos. No início da abril, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company anunciou a instalação de uma fábrica no Arizona para fabricar os chips mais avançados do mundo. É investimento de US$ 65 bilhões, fortemente subsidiado pelo governo americano. Receberá US$ 6,6 bilhões em doações, é elegível para US$ 5 bilhões em empréstimos e ainda poderá reivindicar um crédito fiscal de até 25% do seu investimento.

Já a Intel receberá uma doação de US$ 8,5 bilhões e US$ 11 bilhões de empréstimos em condições generosas.

Os investimentos serão relevantes para aumentar a competitividade da indústria americana. E a redução de bons empregos foi um dos fatores que estimulou o populismo autoritário. 

Ocorre que, por trás de bordões como “aumento de produtividade”, esconde-se a eliminação de empregos. O que são os indicadores de produtividade? É o valor da produção dividido pelo número de trabalhadores envolvidos.

Segundo Rodrik, a produtividade do trabalho na indústria de transformação dos EUA cresceu quase 6 vezes desde 1950. Mas apenas de 1990 para cá a indústria perdeu 6 milhões de empregos, enquanto 73 milhões de empregos não-agrícolas foram criados, especialmente no setor de serviços.

Quando Trump assumiu, a indústria de transformação respondia por 8,6% dos empregos não-agrícolas. Quando terminou o governo, a participação tinha caído para 8,4%. Biden implementou um programa ambicioso de industrialização. Mas o emprego na indústria caiu para 8,2% dos empregos não-agrícolas.

Volte-se aos investimentos da TSMC no Arizona. Eles gerarão apenas 6 mil empregos, ou mais de US$ 10 milhões por posto de trabalho criado.

Esse fenômeno ocorre em todo mundo. A indústria alemã tem uma participação maior no PIB do que a americana. Mesmo assim, diz Rodrik, a porcentagem de empregados na indústria “caiu como uma rocha”. Mesmo na China, o emprego industrial está em queda há mais de uma década.

Constata Rodrik:

“Quer queiramos quer não, serviços como o retalho, o trabalho de cuidados e outros serviços pessoais continuarão a ser o principal motor da criação de emprego. Isso significa que precisamos de diferentes tipos de políticas de bons empregos, com maior enfoque na promoção da produtividade e na inovação favorável ao trabalho nos serviços”.

Esse quadro obrigará a se repensar a Previdência Social. Não se trata mais de tirar benefícios dos aposentados. Mas a base de contribuição precisa urgentemente evoluir para o faturamento, e não para a folha de salários.

Como o Brasil é um país que não consegue diagnosticar nem problemas do passado, dificilmente começará a discutir os problemas do futuro. Mas não custa alertar.

FONTE: REVISTA FÓRUM

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