Quando a tecnologia tem dono, quem manda?
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Fonte: DIAP
Luciano Fazio*
Quem controla a tecnologia pode influenciar o desfecho de uma guerra, as vitórias eleitorais e condicionar o destino de países inteiros. E quem exerce essa influência não precisa ser eleito, prestar contas à sociedade ou responder democraticamente por suas decisões. Não se trata de um alerta sobre um futuro possível, mas de uma realidade presente.
Nunca tivemos tantas possibilidades de comunicação e de acesso à informação, mas uma parcela crescente dessas atividades depende de um pequeno número de empresas privadas, as chamadas Big Techs. Seus sistemas oferecem benefícios inegáveis, mas também concentram recursos e capacidade de intervenção, ameaçando a existência e a autonomia dos Estados, bem como a própria democracia.
No dia 14 de outubro de 2026, houve dois episódios muito significativos, que comprovam a interferência dessas empresas em áreas aparentemente distantes entre si: a disputa eleitoral e a guerra.
O primeiro diz respeito à Meta, proprietária do Facebook, do Instagram e do WhatsApp. A jornalista Thais Bilenky, do portal UOL, testou a inteligência artificial da empresa e constatou um tratamento diferenciado entre candidatos à Presidência da República. Diante de solicitações equivalentes, a ferramenta aceitou criar material eleitoral para Flávio Bolsonaro, mas alegou falta de autorização para criar material em favor de Lula.
Essa discrepância levanta questões fundamentais: quem estabelece os critérios de uma inteligência artificial utilizada por milhões de pessoas para produzir propaganda política? Quem garante sua imparcialidade? Pode-se corrigir eventuais discriminações algorítmicas do sistema, quando ele é controlado pela própria empresa responsável por essas distorções?
A influência das plataformas vai além dos conteúdos que publicam. Abrange aquilo que permitem criar, o que recomendam e a visibilidade que concedem ou retiram. Dessa forma, suas decisões podem influenciar a formação das opiniões, as escolhas eleitorais e o exercício da democracia.
O segundo fato revela consequências ainda mais dramáticas: uma empresa tecnológica privada pode influenciar decisivamente o curso de uma guerra entre países.
Hoje, a Starlink, serviço de conexão à internet via satélite da SpaceX, empresa de Elon Musk, é fundamental para as comunicações militares ucranianas na guerra contra a Rússia. A Reuters noticiou restrições ao funcionamento do serviço durante operações com drones ucranianos, provocando interrupções de conexão, dificuldades de controle e cancelamento de missões. O problema não teria decorrido de uma falha técnica, mas de uma decisão da SpaceX, tomada sem aviso prévio.
Com certeza, os objetivos das Big Techs nem sempre coincidem com o interesse público. As decisões dessas empresas e suas atividades podem produzir efeitos que atingem coletividades inteiras, escapando, ao menos em parte, ao controle das instituições públicas. Os Estados enfrentam dificuldades para regulamentar as atividades de tais empresas e para fiscalizar o cumprimento das normas por parte delas. Assim, o poder das Big Techs é grande e ameaçador demais.
Alegando a defesa da “liberdade”, o governo dos Estados Unidos e vários políticos de outros países defendem a autonomia dessas empresas diante das regulamentações nacionais. O enfraquecimento de determinadas normas impostas às companhias norte-americanas chegou a ser utilizado como moeda de troca em negociações comerciais. Além disso, alguns ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro e seus familiares foram alvo de restrições à concessão de vistos e ao acesso a serviços financeiros nos Estados Unidos, também em resposta à atuação da Corte contra as fake news, cujo combate pelas Big Techs é insuficiente.
Não existem soluções simples para conter a expansão desse domínio privado em setores estratégicos. A regulamentação é um caminho, mas não o único. Os Estados também precisam desenvolver capacidades tecnológicas próprias, criar infraestruturas públicas de comunicação e reduzir a dependência de fornecedores privados em serviços essenciais.
Hoje, o controle do território, a existência das Forças Armadas e a autonomia formal das instituições são insuficientes para garantir a independência de um país. É necessária também a capacidade de impedir que funções essenciais à vida coletiva fiquem subordinadas às decisões de poucas pessoas que não respondem diretamente à população por seus atos.
A questão, em última análise, é política antes mesmo de ser tecnológica: em que medida as decisões das quais dependem o futuro de países inteiros, a democracia, a segurança e a vida cotidiana de milhões de pessoas podem ficar nas mãos de poucos agentes privados?
As gigantes da tecnologia digital têm o direito de inovar, investir e desenvolver suas atividades. Mas isso não pode se transformar no direito de condicionar, sem um controle adequado da sociedade, as escolhas dos cidadãos e o destino das nações. Corre-se o risco de manter a democracia apenas formalmente, enquanto ela perde, progressivamente, sua substância.
Em suma, se a tecnologia pode propiciar liberdade, pode também ser um instrumento de dominação. O verdadeiro desafio do nosso tempo é impedir que os detentores do controle da tecnologia acabem decidindo também quem exerce o poder e em nome de quem.
(*) Matemático pela Università degli Studi de Milão/Itália, especialista em Previdência pela FGV e autor do livro “O que é previdência do servidor público”, Ed. Loyola, 2020.