Como as sanções dos EUA contra as IAs chinesas travam o desenvolvimento global da tecnologia
Chat GPT e DeepSeek – Chat GPT e DeepSeek (Photo by Imen Ben Youssef / Hans Lucas via AFP)
Ao restringir o acesso a semicondutores avançados, equipamentos de fabricação e determinados recursos computacionais, o governo americano interfere nas condições de desenvolvimento de uma tecnologia utilizada por pesquisadores, empresas e governos de todo o mundo
Fonte: Revista Fórum
AChina acusou os Estados Unidos de utilizar justificativas de segurança nacional para restringir a concorrência no setor de inteligência artificial (IA), após Washington proibir o uso do modelo DeepSeek em sistemas de órgãos federais e impor sanções a cinco empresas chinesas.
Mas as sanções dos Estados Unidos contra empresas e tecnologias chinesas de inteligência artificial (IA) vão além da disputa pela liderança tecnológica entre Washington e Beijing.
Ao restringir o acesso a semicondutores avançados, equipamentos de fabricação e determinados recursos computacionais, o governo americano interfere nas condições de desenvolvimento de uma tecnologia utilizada por pesquisadores, empresas e governos de todo o mundo.
O efeito é especialmente relevante para países que não possuem infraestrutura própria para fabricar chips de última geração. Quando as restrições limitam a concorrência entre fornecedores, podem encarecer o treinamento de modelos, dificultar projetos de pesquisa e reduzir as alternativas disponíveis para desenvolver aplicações de IA.
Em janeiro de 2025, o Ministério do Comércio da China criticou as restrições americanas à exportação de tecnologias relacionadas à inteligência artificial. Segundo a pasta, as medidas ampliavam os controles sobre chips e parâmetros de modelos, estendiam a jurisdição dos Estados Unidos a operações internacionais e criavam obstáculos ao comércio legítimo com empresas chinesas.
Restrições ultrapassam as fronteiras americanas
O alcance das medidas não se limita às vendas realizadas diretamente por empresas dos Estados Unidos. Determinadas regras americanas também se aplicam a produtos fabricados no exterior que utilizam tecnologias, equipamentos ou softwares sujeitos aos controles de exportação.
Isso cria um efeito internacional: fornecedores de outros países precisam verificar se suas operações estão submetidas às normas americanas antes de vender determinados componentes a empresas chinesas.
Na prática, a influência de Washington sobre segmentos estratégicos da cadeia de semicondutores pode limitar as opções de fornecedores disponíveis no mercado mundial. Empresas que desenvolvem sistemas de IA fora dos Estados Unidos também podem enfrentar dificuldades quando dependem de componentes sujeitos a essas restrições.
O impacto não significa que todos os modelos chineses se tornem inacessíveis. Sistemas já treinados, ferramentas de código aberto e modelos cujos parâmetros são disponibilizados publicamente podem continuar sendo utilizados em diferentes países. O problema está também na capacidade de produzir novas gerações de sistemas e ampliar sua infraestrutura de maneira competitiva.
A disputa ameaça a cooperação científica
Outro efeito potencial é a fragmentação do ecossistema internacional de inteligência artificial. Restrições comerciais e tecnológicas podem dificultar parcerias entre universidades, laboratórios e empresas, além de reduzir a circulação de conhecimentos e ferramentas.
Para países como o Brasil, a fragmentação tecnológica representa um desafio adicional. Universidades, startups e instituições públicas dependem de equipamentos, serviços de computação em nuvem e modelos desenvolvidos por empresas estrangeiras.
A redução da concorrência pode elevar custos e dificultar o acesso a ferramentas avançadas. Além disso, a consolidação de ecossistemas tecnológicos separados pode obrigar governos e empresas a adaptar suas escolhas às regras comerciais de cada potência.
A questão também envolve a distribuição dos benefícios da IA. Se o acesso à infraestrutura mais avançada ficar concentrado em poucas empresas e países, economias com menor capacidade de investimento poderão enfrentar mais dificuldades para desenvolver soluções próprias.
Sanções podem acelerar alternativas chinesas
As restrições americanas também estimulam a China a investir na fabricação doméstica de semicondutores e no desenvolvimento de modelos que exijam menos recursos computacionais.
Uma análise publicada pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em março de 2026, apontou que os controles americanos e de países aliados aceleraram os esforços chineses para substituir equipamentos e componentes estrangeiros. O instituto ressalvou que a China ainda enfrenta desafios para alcançar a fronteira tecnológica em determinados segmentos da fabricação de chips.
Esse movimento pode reduzir a dependência chinesa no longo prazo, mas também exige investimentos elevados e não elimina imediatamente os gargalos industriais.
O resultado é uma disputa que pode comprometer a cooperação internacional e tornar o desenvolvimento da inteligência artificial mais caro e fragmentado. Embora Washington justifique os controles por razões de segurança nacional, seus efeitos ultrapassam o setor militar e alcançam a pesquisa, a indústria e o acesso global à tecnologia.
Para países que buscam autonomia digital, o desafio é evitar que a rivalidade entre as duas maiores potências tecnológicas transforme o acesso à inteligência artificial em mais um fator de desigualdade internacional.