A responsabilidade jornalística nas pesquisas eleitorais
Foto: Divulgação/TSE
Sem tempo para checar metodologias complexas, redações enfrentam riscos de manipulação política na cobertura das eleições
Fonte: Jornal GGN
Por Carlos Castilho
No Observatório da Imprensa
Uma das mais complicadas tarefas de um editor de jornais, telejornais, revistas e sites noticiosos é a publicação dos resultados de pesquisas de intenção de voto às vésperas de uma eleição. É que o profissional dificilmente tem acesso à ‘cozinha’ das pesquisas e vai divulgar dados impossíveis de serem checados. São estatísticas e gráficos que influenciarão as escolhas de eleitores confiantes na capacidade do jornalismo de publicar apenas o que é real e verdadeiro.
A frequência crescente na divulgação de pesquisas colocou o jornalismo no meio de um processo político/empresarial envolvendo, de um lado, grandes interesses eleitorais e, do outro lado, pessoas vulneráveis à desinformação. É uma situação que implica uma enorme responsabilidade profissional pois envolve o risco do profissional ser induzido a erro pelo ritmo frenético dos fluxos informativos digitais.
Sites noticiosos, blogs jornalísticos e influenciadores se atropelam para divulgar pesquisas pré-eleitorais com um duplo objetivo: ganhar da concorrência e tentar influenciar seu público vacinando-o contra outras interpretações da mesma pesquisa. Hoje temos, em média, uma pesquisa de intenções de voto a cada dois dias, com resultados e metodologias diferentes. A isto somam-se sondagens como a feita pelo site Brasil do Trecho, que publicou uma pesquisa com resultados flagrantemente tendenciosos e enganadores, segundo mostrou uma postagem do vídeo checamos.com.br, da agência de notícias France Press.Play Video
Estamos mergulhando numa cacofonia de percentuais, tendências e métricas misteriosas que mais confundem do que esclarecem. Resultado, as pesquisas tornam-se cada vez mais instrumentos de indução de voto do que de esclarecimento do eleitor. Neste contexto, a contratação de Felipe Nunes, criador e diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria pela TV Globo como comentarista num programa de notícias pode gerar dúvidas entre os eleitores sobre os vínculos entre negócios e jornalismo na cobertura de eleições.
O tsunami de pesquisas eleitorais
A gravidade deste comportamento está no fato de que as pesquisas de intenção de voto envolvem processos muito complexos de seleção de amostras de entrevistados, opção entre consulta presencial ou virtual, formulação de perguntas, escolha do dia e da hora para a realização das entrevistas, seleção dos softwares de processamento das respostas dos entrevistados, consolidação dos resultados, elaboração de gráficos e, finalmente, os formatos de divulgação.
Cada uma destas etapas envolve escolhas técnicas que condicionarão os resultados finais, mas os jornalistas recebem apenas um índice de confiabilidade fixado pelos responsáveis pela pesquisa (sem possibilidade de checagem rápida), o número de entrevistados (sem detalhamento da amostra) e a data da consulta.
O problema é que nos últimos 20 anos, quintuplicou o número de empresas que realizam pesquisas de opinião eleitoral. O site Pindograma, uma referência no setor de acompanhamento dos institutos de pesquisa, investiga cerca de 180 organizações para elaborar um ranking com, em média, pouco mais de 100 empresas de pesquisa. O mais recente ranking publicado em 2024 pelo Pindograma, com dados de 2022, apontou nove empresas com nível A em matéria de qualidade nas pesquisas, entre as quais estão Atlas Intel, Futura, IPEL (antigo IBOPE) e Mapa. A empresa Ágora foi considerada a melhor de todas. Em compensação, nomes conhecidos como Datafolha, Quaest, Paraná Pesquisas, Vox Populi e PoderData ficaram na categoria B.
A multiplicação das pesquisas aumenta a complexidade do trabalho dos jornalistas e consolida a tendência de ver os números como uma antecipação do resultado das urnas. Os profissionais, autônomos ou em redações, não dispõem de tempo para checar a autenticidade de todas as etapas de uma pesquisa de intenção de voto. Logo, são obrigados a confiar no que recebem. No começo deste mês, uma investigação na Inglaterra mostrou como é fácil induzir os jornalistas a um erro causado pela manipulação de uma das várias fases de uma pesquisa. O partido Reforma usou uma organização ambiental para encomendar à empresa JL Partners três pesquisas de opinião com amostras de entrevistados e perguntas destinadas a gerar uma imagem positiva da agremiação de extrema direita. O objetivo foi alcançado, e a trama só veio casualmente a público porque um repórter investigava doações ao Reforma.
Eleições e pasta de dentes
A multiplicação de empresas de pesquisas eleitorais é causa e consequência do acirramento das disputas pelo poder, da crescente sofisticação tecnológica no uso de veículos de comunicação digitais e do recurso à corrupção como método político. Tudo isto ocorre num contexto eleitoral que é cada vez menos uma festa democrática e mais uma batalha ideológica que assume ares de tudo ou nada.
Saber o que pode acontecer virou uma obsessão para empresários dependentes de decisões governamentais, afinal, fazer pesquisas é um grande negócio, como garante Jonathan Liew, colunista permanente do jornal britânico The Guardian, num artigo publicado na semana passada. Uma lógica financeira destacada por um executivo ao site Publico: “Um empresário só investe em pesquisas quando sabe que terá alguma vantagem com a divulgação dos resultados”. Afirmação corroborada por George Gallup, o fundador do icônico Instituto Gallup, com a frase: “Se funciona com a pasta de dentes, por que não com a política?”
A interação entre interesses políticos e empresariais é um complicador adicional para o discernimento jornalístico na hora de decidir o que é do interesse do eleitor e o que serve a quem aspira ao poder, seja ele político, financeiro ou ambos.
Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.