Governo brasileiro negocia exceções a tarifas dos EUA
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Representante comercial estadunidense, Jamieson Greer, confirmou que a decisão será tomada “muito em breve”, com prazo encerrando em 15 de julho
Fonte: Revista Fórum
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou, nesta quinta-feira (9), que a decisão sobre tarifas de 25% sobre produtos brasileiros será anunciada “muito em breve”, com prazo legal até 15 de julho.
A medida é resultado de uma nova imposição injustificável de Donald Trump em relação às práticas comerciais do Brasil e pode atingir setores que vão da agropecuária à tecnologia de pagamentos.
O governo brasileiro, reconhecendo que o tarifaço é praticamente inevitável, concentra seus esforços em negociar exceções para reduzir o alcance dos danos.
Em entrevista à Fox Business Network, Greer foi direto: “Tenho conversado com os brasileiros. Temos tentado negociar. Acho que ainda há uma grande distância entre nós, então vocês verão uma decisão final muito em breve sobre o Brasil, pois temos um prazo legal que vence em 15 de julho”.
A proposta do governo Trump é aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A lista de alegações absurdas do governo estadunidense é reveladora: desmatamento ilegal, pirataria e o sistema de pagamentos instantâneos Pix.
Em 1º de junho, Trump formalizou a proposta das tarifas de 25%. No dia seguinte, anunciou taxas adicionais de 12,5% para 60 países, incluindo o Brasil, sob outra justificativa totalmente sem sentido, como falhas no combate ao trabalho forçado.
Usar o Pix como argumento para uma guerra comercial diz muito sobre a natureza política do processo, pois o que Trump deseja, na verdade, é proteger empresas estadunidenses que atuam no Brasil, desde big techs até operadoras de cartões de crédito, como Visa e Mastercard.
Negociações e a busca por exceções
Diante do cenário, o governo brasileiro adotou uma postura de contenção de danos: dá o tarifaço de 25% como certo, mas aposta na possibilidade de ampliar a lista de exceções e pretende manter as negociações abertas até o limite do prazo, em 15 de julho.
O movimento brasileiro encontra eco inesperado no próprio campo empresarial estadunidense. Nesta semana, representantes de empresas e associações dos dois países participaram de audiências pedindo que a tarifa adicional não seja implementada.
Gigantes como Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens enviaram comentários formais ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) contra a medida.
Para o presidente da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), Abrão Neto, “a aplicação de novas tarifas seria prejudicial para ambas as economias, com impactos negativos para o setor produtivo e os consumidores dos Estados Unidos, além de perda de competitividade das exportações brasileiras para um mercado crucial”.
Quando as próprias empresas dos EUA se mobilizam contra a política tarifária de Washington, o argumento de Trump de que a medida protege interesses nacionais fica difícil de sustentar.
Impactos e preocupações dos setores
Nas audiências realizadas esta semana, representantes dos setores de arroz, gelatina, sementes, cera de carnaúba e agropecuária foram uniformes no diagnóstico: as tarifas encareceriam alimentos, medicamentos e insumos agrícolas para o consumidor estadunidense e desorganizariam cadeias produtivas nos próprios EUA.
Um dos argumentos centrais apresentados é que tornar mais caro importar do Brasil empurra as cadeias produtivas dos EUA para uma dependência ainda maior de insumos vindos da China, efeito que contradiz diretamente a estratégia comercial declarada do governo Trump.
Os números do comércio bilateral reforçam a preocupação. Abrão Neto, da Amcham, apontou que a participação dos EUA no comércio total do Brasil caiu para 11,2% nos cinco primeiros meses de 2026, o menor nível já registrado, com as importações brasileiras provenientes dos EUA recuando 11% no mesmo período.
Tarifas adicionais tendem a aprofundar essa tendência, abrindo espaço para que concorrentes, sobretudo chineses, ampliem sua presença no mercado brasileiro.
O USTR reconheceu a sensibilidade do tema ao apresentar uma longa lista de exceções em ambos os pacotes tarifários (25% e 12,5%), justamente para evitar alta de preços no mercado estadunidense. A expectativa de empresários é que o alcance final da medida seja calibrado conforme seus impactos sobre a economia dos EUA, não sobre a brasileira.