Maiores plataformas digitais falham em transparência sobre publicidade
Com mais de 170 milhões de brasileiros conectados, o ambiente digital tornou-se espaço de interação constante | Imagem: Redes sociais – Shutterstock
Levantamento aponta dados incompletos ou ausentes, falhas nas bibliotecas de anúncios, pouca clareza sobre financiamento e segmentação de público e ausência de padrões que permitam comparações entre as plataformas
Fonte: Jornal GGN
Metade das maiores plataformas digitais do mundo não cumpre padrões mínimos de transparência sobre a publicidade que veicula. A conclusão é do estudo Data Not Found, produzido por pesquisadores do NetLab, Laboratório de Pesquisa em Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Minderoo Centre for Technology & Democracy (MCTD), do Reino Unido.
A pesquisa investigou a disponibilidade e a qualidade de dados sobre publicidade e conteúdos gerados por usuários em 15 grandes plataformas que operam no Brasil, na União Europeia e no Reino Unido, entre elas TikTok, Instagram, Facebook, YouTube, Kwai e Telegram. Para medir o grau de abertura de cada plataforma, os pesquisadores aplicaram o Índice de Transparência das Redes Sociais, desenvolvido conjuntamente pelas duas instituições, que avalia critérios como disponibilidade, completude e padronização dos dados, facilidade de acesso e rastreabilidade de anúncios.
Opacidade
Os resultados, consolidados no início de abril, apontam baixa transparência em praticamente todos os aspectos analisados: dados incompletos ou ausentes, falhas nas bibliotecas de anúncios, pouca clareza sobre financiamento e segmentação de público e ausência de padrões que permitam comparações consistentes entre plataformas.
No Brasil, o quadro é ainda mais grave. Embora as plataformas operem plenamente no país, os mecanismos de transparência disponíveis são mais limitados e irregulares do que os encontrados na União Europeia. Isso se traduz em menor volume de dados acessíveis, lacunas mais amplas nas bibliotecas de anúncios e maior dificuldade de acesso por pesquisadores independentes. Em alguns casos, ferramentas disponíveis em outros países simplesmente não existem no Brasil, ou funcionam de forma significativamente mais restrita.
Para os autores do estudo, essa opacidade não é acidental. Mesmo quando existem mecanismos de transparência, eles se mostram limitados, inconsistentes e pouco confiáveis, operando mais como estratégias de relações públicas do que como instrumentos genuínos de prestação de contas. “As plataformas passam a definir as próprias condições de produção de conhecimento sobre si”, afirmam os pesquisadores.
Consequências
A falta de acesso a dados confiáveis compromete diretamente a capacidade de pesquisadores auditarem os impactos sociais dessas empresas e de reguladores conduzirem investigações sobre suas práticas. Isso deixa sem resposta questões críticas: como identificar campanhas de desinformação disfarçadas de conteúdo orgânico? Como monitorar publicidade fraudulenta direcionada a usuários vulneráveis? Como mapear a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos inapropriados?
A assimetria é estrutural: as plataformas acumulam dados detalhados sobre seus usuários, mas tornam seu próprio funcionamento praticamente opaco para quem tenta fiscalizá-las.
Regulação europeia
O estudo também questiona os limites da legislação mais avançada do setor. O Digital Services Act (DSA), da União Europeia, obriga as plataformas a disponibilizarem dados para pesquisa, mas mantém em suas mãos ampla discricionariedade sobre quem pode acessá-los e como. Na prática, pedidos de acesso são frequentemente negados sem justificativa, inclusive pelos próprios autores do estudo.
Além disso, as ferramentas de transparência disponíveis nas plataformas costumam ter capacidades de busca restritas e dados pouco granulares, dificultando análises mais robustas sobre segmentação de público, alcance de campanhas e impactos sociais da publicidade online.
Mudanças
Os pesquisadores defendem que a transparência das plataformas precisa ser tratada como condição inegociável para a proteção do interesse público, e não como uma escolha corporativa. Entre as recomendações do estudo, destaca-se a necessidade de que o acesso a dados públicos seja universal e estruturado para viabilizar análises verdadeiramente independentes.
Para o Brasil e o restante do Sul Global, a urgência é ainda maior. A concentração de mecanismos de transparência em poucos países aprofunda desigualdades: enquanto alguns pesquisadores conseguem acesso a dados, outros permanecem excluídos, justamente em regiões que muitas vezes enfrentam riscos mais elevados relacionados à desinformação e ao abuso das plataformas.
Enquanto os marcos regulatórios não avançam, os autores do estudo defendem que as próprias plataformas adotem, de forma voluntária e imediata, os padrões mais elevados disponíveis, garantindo níveis consistentes de transparência para usuários e pesquisadores em qualquer parte do mundo.
*Com informações do The Conversation Brasil.