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Forças progressistas globais lançam pacto mundial em defesa da democracia

23/04/2026

Ricardo Stuckert

Com lideranças globais, entre elas o presidente Lula, CUT participou de encontro em Barcelona que articulou agenda internacional por democracia, justiça social e enfrentamento à extrema direita

Fonte: CUT

Nos dias 17 e 18 de abril de 2026, a cidade de Barcelona sediou a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia e a 1ª Mobilização Progressista Global (GPM), que reuniu chefes de Estado, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lideranças políticas, representantes sindicais, acadêmicos e ativistas de diversos continentes. O encontro consolidou uma articulação internacional voltada à defesa da democracia, da justiça social e do multilateralismo, em um contexto de avanço da extrema direita em diferentes regiões do mundo.

Mobilização Progressista Global é uma plataforma de cooperação entre forças progressistas da América Latina, Caribe, África, Europa, Ásia e América do Norte, cuja missão é construir respostas comuns a desafios como o aumento das desigualdades, a desinformação, o enfraquecimento das instituições democráticas e a crise da governança global.

Além de Lula, entre os participantes estiveram lideranças como o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley. Também participaram lideranças como Gustavo Petro, Yamandú Orsi e António Costa, além de representantes de organismos internacionais, parlamentares, intelectuais e dirigentes sindicais.

O encontro resultou em um documento final, intitulado “Chamado para uma mobilização global progressista” , que traz um diagnóstico de crise global, marcado pelo aumento da pobreza extrema, pela crise do custo de vida, pelo enfraquecimento do direito internacional e pela intensificação de guerras em diferentes regiões. A proposta é reafirmar princípios associados à Organização das Nações Unidas (ONU) como paz, cooperação e direitos humanos e atualizá-los diante dos desafios contemporâneos.

O documento traz ainda a agenda de atuação em seis frentes: defesa da democracia, economia progressista, igualdade de direitos, justiça ambiental, governança digital e reforma da governança global.

Entre as propostas estão o combate à desinformação, o fortalecimento de serviços públicos, a defesa de sistemas de proteção social, a criação de mecanismos de tributação sobre grandes fortunas e a regulação da inteligência artificial com foco no interesse público.

Leia a íntegra do documento 

Reprodução MGP – site oficial

Lula defende coerência do campo progressista e critica guerras e desigualdade

Ponto alto do evento, o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no encerramento da Mobilização Global Progressista, destacou a necessidade de coerência das forças progressistas. Lula criticou o modelo econômico neoliberal e fez um apelo pela paz global.

Ao abrir sua fala, Lula destacou o caráter político do encontro e afirmou que a iniciativa busca reafirmar o papel da democracia no cenário internacional. “Tenta mostrar ao mundo que a democracia não morreu, que tenta mostrar ao mundo que ninguém precisa ter vergonha de ser progressista ou de ser de esquerda”, disse, ao elogiar o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, pela organização do evento.

O presidente brasileiro ressaltou que o encontro não deve se limitar ao debate pontual e defendeu uma mobilização contínua. “O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda semana, todo mês e durante 365 dias por ano”, afirmou.

Crítica ao neoliberalismo, defesa de coerência e desigualdades

Um dos eixos centrais do discurso foi a crítica ao modelo econômico dominante. Lula afirmou que o neoliberalismo “prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança”, além de provocar crises sucessivas.

Ele também fez autocrítica ao campo progressista, ao afirmar que alguns governos eleitos com plataformas populares acabam adotando políticas de austeridade, o que abre espaço para o avanço da extrema direita.

O presidente também apontou a concentração de renda como um dos principais problemas globais. Segundo ele, “um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial” e sustenta a ideia de meritocracia enquanto dificulta a ascensão social.

Lula destacou que as demandas da população são concretas e universais. “Ela quer comer bem, morar bem. Escolas de qualidade, hospitais de qualidade. Um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada”, disse.

Crítica às guerras

Na política internacional, Lula defendeu a reformulação do sistema global e criticou o formato atual do Conseho de Segubraça da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo ele, a configruação do Conselho tem sido ineficaz diante dos conflitos. “O Conselho de Segurança não permite que as coisas aconteçam. Quando um aprova uma coisa, o outro veta”, afirmou.

O presidente também criticou intervenções militares recentes e disse que o mundo vive o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. “Nós não queremos mais guerra fria com ninguém”, declarou, defendendo a paz e o diálogo entre países.

Ele cobrou diretamente lideranças globais, incluindo Donald Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin, Emmanuel Macron e Keir Starmer, para que priorizem a paz. “Cumpram com as suas obrigações de garantir a paz do mundo”, disse.

Democracia e combate à extrema direita

Lula alertou que a ameaça à democracia é concreta. Ao citar o caso brasileiro, declarou que houve articulação golpista. “No Brasil, ela [a extrema direita] planejou um golpe de Estado”, afirmou.

Ele também criticou o uso de desinformação e discursos de ódio. “A extrema direita grita, mente e ataca. Não podemos ter medo de falar mais alto e com muita responsabilidade”, disse.

Trajetória pessoal e defesa da democracia

Em tom pessoal, Lula relembrou sua trajetória como trabalhador e dirigente sindical. Disse que entrou na política ao perceber a ausência de representantes da classe trabalhadora e destacou a importância da democracia brasileira.

“Pela primeira vez no país, o Brasil elegeu um operário presidente da República sem diploma universitário”, afirmou.

Ele também enfatizou o papel da educação e da experiência de vida na formação política. “A inteligência é uma coisa mais sagrada que a gente conquista no aprendizado dentro de uma fábrica ou com a sociedade brasileira”, disse.

Ao encerrar, Lula reforçou que a democracia exige ação cotidiana e resultados concretos. “A democracia não é um destino, é uma construção cotidiana”, afirmou.

Ele defendeu que o campo progressista recupere a capacidade de projetar futuro e substitua o desalento pela esperança. “Temos que substituir o desalento pelo sonho. O ódio pela esperança”, disse.

O presidente concluiu com um apelo pela paz e pela dignidade. “Eu não quero guerra. Eu quero paz, amor e fraternidade, e ver o mundo progressivo para que o povo viva melhor e dignamente”, afirmou.

Veja aqui a íntegra do discurso de Lula

Debate sindical internacional

A CUT participou do encontro com a presença do secretário de Relações Internacionais, Antonio Lisboa, também vice-presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Lisboa integrou a mesa “Assembleia Sindical sobre Justiça Social e Valores: A resposta dos sindicatos à extrema-direita”, que reuniu lideranças sindicais para discutir o papel do movimento sindical diante do avanço de forças autoritárias.

O painel abordou questões como o avanço da extrema direita e seus impactos sobre o mundo do trabalho, a partir de uma perspectiva sindical, além de discutir experiências concretas voltadas à efetivação da justiça social.

Também foi debatida a construção de uma nova agenda capaz de dialogar com os trabalhadores e responder às suas demandas, culminando em um diálogo com lideranças políticas progressistas sobre a formulação de uma agenda compartilhada voltada ao fortalecimento da resiliência democrática.

Pelos canais da CSI nas redes sociais, Lisboa afirmou que a mensagem para os trabalhadores do mundo inteiro é “organizem-se , procurem suas lideranças sindicais e seus sindicatos para enfrentar a extrema direita e garantir os direitos para os trabalhadores e trabalhadoras do mundo inteiro”.

Do painel resultou a “Declaração da Assembleia Sindical de Barcelona”, que estabelece a justiça social e o fortalecimento dos valores democráticos como eixo da resposta do movimento sindical global.

O documento afirma que a solidariedade é essencial para impedir a divisão dos trabalhadores e critica a atuação da extrema direita, acusada de explorar a desinformação, o racismo e a insegurança econômica. Segundo o texto, essas forças não enfrentam as desigualdades estruturais, mas reforçam interesses de grandes corporações e elites financeiras.

A declaração também aponta que a precarização do trabalho, as políticas de austeridade e a crise do custo de vida contribuíram para um cenário de insatisfação social.

Como resposta, o documento propõe um pacto baseado em empregos de qualidade, salários dignos, fortalecimento da negociação coletiva, serviços públicos universais e justiça tributária.

O texto conclui que não há paz duradoura sem justiça social e direitos trabalhistas, reafirmando o compromisso com o multilateralismo e o direito internacional.

Veja aqui a íntegra da Declaração da Assembleia Sindical de Barcelona Justiça Social e Valores: A Resposta do Movimento Sindical à Extrema Direita

Mobilização permanente

A Mobilização Progressista Global encerrou o encontro com a proposta de formação de uma articulação permanente entre forças progressistas. A iniciativa busca ampliar a coordenação internacional e fortalecer a atuação política em diferentes espaços.

A orientação apresentada no encontro é de mobilização contínua, com incentivo à organização da classe trabalhadora em sindicatos e movimentos sociais como forma de enfrentar a extrema direita e garantir direitos.

O encontro em Barcelona marcou, portanto, o início de uma articulação internacional que pretende colocar em prática transformar ações políticas concretas, com impacto nas condições de vida da população e na defesa da democracia em escala global.

Mídia oficial: Mobilização Progressista Global reuniu líderes mundiais para defender a democracia.

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