Sem formação digital, o Brasil fica dependente de outras potências
– Imagem ilustrativa. Foto: EVG Kowalievska/Pexels
Quando não dominamos tecnologia, não definimos regras. Quando não definimos regras, não controlamos os rumos do desenvolvimento. E quando não controlamos o desenvolvimento, abrimos mão de autonomia
Fonte: Revista Fórum
Existe um equívoco recorrente no debate público brasileiro: tratar a formação digital como um tema restrito à educação. Para quem acompanha de perto a evolução da economia digital e atua na construção de políticas públicas para tecnologia e jogos eletrônicos, a questão é mais profunda. Formação digital hoje é uma agenda estratégica de país. E, mais do que isso, é uma questão de soberania.
O Brasil se acostumou a consumir tecnologia produzida fora. Plataformas, sistemas, ferramentas, infraestrutura — boa parte do que organiza nossa vida digital cotidiana é desenvolvida em outros países, sob regras que não controlamos e interesses que não necessariamente coincidem com os nossos. Isso cria uma dependência silenciosa.
Ela não aparece apenas na balança comercial ou nos indicadores econômicos. Ela aparece na forma como nos comunicamos, aprendemos, produzimos e até pensamos soluções para nossos próprios desafios. E essa dependência começa muito antes do mercado de trabalho, ela começa na formação.
Hoje, o Brasil forma milhões de jovens todos os anos sem garantir que eles tenham domínio real sobre as linguagens e ferramentas que estruturam o mundo digital. Não se trata apenas de saber usar aplicativos, mas de compreender lógica, programação, produção de conteúdo, design de sistemas e pensamento crítico sobre tecnologia. Sem isso, o país ocupa sempre a mesma posição: consumidor.
Há um dado que ilustra bem esse problema. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2024, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, 76% das empresas brasileiras que utilizam inteligência artificial recorrem a soluções prontas de mercado, 56% dependem de fornecedores externos para desenvolver ou adaptar sistemas e apenas cerca de 20% desenvolvem a tecnologia internamente. Isso significa que, mesmo quando há crescimento econômico no ambiente digital, grande parte do valor gerado não permanece no país. E isso tem implicações diretas.
Quando não dominamos tecnologia, não definimos regras. Quando não definimos regras, não controlamos os rumos do desenvolvimento. E quando não controlamos o desenvolvimento, abrimos mão de autonomia. Ao mesmo tempo, o Brasil tem todas as condições para mudar esse cenário.
Temos uma das maiores populações conectadas do mundo, uma juventude criativa e familiarizada com ambientes digitais e um ecossistema que já demonstrou capacidade de organização quando há decisão política. O setor de jogos eletrônicos é um exemplo claro disso. Durante décadas, desenvolvedores brasileiros produziram jogos, criaram estúdios e movimentaram a economia sem qualquer reconhecimento formal. Com a consolidação da Lei 14.852/2024, mais conhecida como o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, pela qual advoguei arduamente, o país começou a estruturar esse campo como política pública, criando condições para investimento, formação e crescimento.
Mas esse movimento precisa ir além de setores específicos. A formação digital precisa ser tratada como política estruturante. Isso significa, por exemplo, incorporar programação e pensamento computacional desde a educação básica, formar professores para lidar com essas novas linguagens, aproximar escolas do ecossistema produtivo e criar caminhos reais para que jovens possam se inserir em uma economia cada vez mais baseada em tecnologia.
Significa também reconhecer que educação digital é técnica, cultural, econômica e política. Formar jovens para o mundo digital é formar cidadãos capazes de entender como funcionam as plataformas que utilizam, questionar modelos de negócio, proteger seus dados e, principalmente, criar, porque é na capacidade de criar que está a diferença entre dependência e autonomia.
Países que hoje lideram a economia digital não chegaram lá por acaso. Investiram de forma consistente em formação, conectaram educação com desenvolvimento econômico e trataram tecnologia como prioridade nacional. O Brasil ainda não fez isso na escala necessária, mas já demonstrou que é capaz de avançar quando organiza suas agendas. O desafio agora é transformar a formação digital em uma política de Estado contínua, integrada e com metas claras.
Porque essa não é uma discussão sobre o futuro, ela define o presente. Sem a formação digital, o Brasil continuará dependente. Com formação digital, pode disputar espaço. O talento já existe, falta decisão.
*Márcio Filho é presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ) e diretor executivo da GF CORP, empresa voltada para soluções gamificadas. Com uma trajetória sólida que abrange mais de duas décadas, destaca-se pelo seu engajamento social em defesa de políticas públicas voltadas para o setor de jogos, como na participação ativa na aprovação do Marco Legal dos Games. É especialista em Games e Sociedade, e atua diretamente no desenvolvimento de tecnologias enquanto potencializadoras da educação.