Notícias

Escala 996: o que é, como funciona e por que foi adotada pelas empresas de IA

09/02/2026

Que impactos terá a inteligência artificial nas eleições 2026? – Chatbots, assistentes virtuais e mensageria privada ampliam o poder das Big Techs sobre o voto (cDuBBy/Pixabay)

A cultura de trabalho do modelo 996, que pode chegar a cargas horárias de até 72 h semanais, ganha força em startups de tecnologia e levanta alertas sobre saúde e produtividade

Fonte: Revista Fórum

Na contramão das propostas do fim da escala 6×1 no Brasil, empresas de tecnologia (especialmente as ligadas à Inteligência Artificial) nos Estados Unidos têm seguido um padrão de trabalho semanal que resulta em 72 horas. Conheça mais sobre a escala 996, a cultura de trabalho que valoriza jornadas longas, alta intensidade e dedicação quase total à empresa.

O nome e o funcionamento: 996

A escala de trabalho 996, como é conhecida, consiste em trabalhar das 9 h às 21 h semanalmente, resultando em uma carga horária semanal de 72 h, ou em 6 dias trabalhados – daí o nome 996 (“das 9h às 9h, 6 dias por semana”).

A prática ganhou notoriedade inicialmente na China, há cerca de uma década e hoje ressurge com força no setor de tecnologia global, impulsionada pela corrida em torno da IA.

Embora para muitos trabalhadores essa rotina seja exaustiva, empresas que adotam o modelo costumam apresentá-lo como um diferencial competitivo — e até como um símbolo de prestígio profissional.

A cultura do cansaço em tecnologia

Em seus anúncios de recrutamento, algumas empresas deixam claro que buscam profissionais dispostos a trabalhar cerca de 70 horas semanais, presencialmente, comparando-os com “atletas olímpicos” e movidos por “obsessão, ambição e paixão pelo trabalho”. 

Essa mentalidade, também chamada de grindcore ou cultura da produtividade extrema (ou trabalho escravo), tem se tornado comum em startups de IA que disputam investimentos bilionários e tentam lançar produtos antes da concorrência. As jornadas de trabalho atuais em tech no resto do globo, em geral, funcionam em uma escala normal de 8 horas de trabalho – exceto em casos de crise.

A definição de trabalho escravo considera toda forma de exploração laboral que viola a dignidade e a liberdade da pessoa, caracterizada por condições degradantes, jornadas exaustivas, servidão por dívida, restrição de locomoção ou qualquer mecanismo de coerção física, psicológica ou econômica que impeça o trabalhador de deixar o emprego.

Críticas: produtividade, saúde e desigualdade

No início da pandemia de Covid-19, o debate nos EUA girava em torno do cansaço extremo e da necessidade de mais flexibilidade. Até empresas de tecnologia, conhecidas por cobrar alto desempenho, passaram a defender o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Agora, o avanço do 996 marca uma inversão: volta-se a valorizar a dedicação total, mesmo que isso signifique sacrificar descanso e convívio social.

Contudo, longas jornadas não significam necessariamente maior produtividade ou qualidade no trabalho. Os estudos indicam que, após certo limite (geralmente em torno de 40h semanais), a produtividade tende a cair devido ao desgaste físico e mental. A pesquisa Long Working Hours Increasingly Threaten Health Worldwide: WHO/ILO Joint Estimates of the Work-Related Burden of Disease and Injury, da Universidade Estadual de Michigan, mostra que funcionários que trabalham 70 horas por semana produzem pouco mais do que aqueles que trabalham 50.

Divulgada em 2014, a pesquisa aponta que o cansaço físico e mental reduz a capacidade de concentração, aumenta erros e compromete a qualidade do trabalho, tornando ineficiente a lógica de jornadas extremas. Assim, insistir em cargas horárias excessivas não só prejudica a saúde dos trabalhadores, como também não traz ganhos reais de desempenho para empresas e organizações, reforçando a ideia de que produtividade está mais ligada à gestão eficiente do tempo do que ao simples aumento de horas trabalhadas.

Há ainda riscos graves à saúde. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que jornadas acima de 55 horas semanais contribuíram para 745 mil mortes por doenças cardíacas e Acidente Vascular Cerebral (AVC) em um único ano, o que coloca o excesso de trabalho como um fator de risco ocupacional relevante, comparável a outros problemas estruturais de saúde pública.

A análise aponta que o impacto não se limita a países específicos, afetando trabalhadores de diferentes regiões e setores, sobretudo aqueles submetidos a culturas organizacionais que normalizam o excesso de horas. O estudo reforça que o problema não é apenas individual, mas estrutural, e que políticas públicas e regulações trabalhistas são fundamentais para reduzir danos à saúde, prevenir mortes evitáveis e garantir condições dignas de trabalho.

Cadastre-se e receba e-mail com notícias do SINDPD