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A próxima crise da economia pode ser digital. E está sendo ignorada, alerta especialista

07/01/2026

Economia digital pode entrar em colapso? – (geralt/Pixabay)

Sociólogo alerta para risco sistêmico na economia digital: Big Techs concentram lucros, transferem riscos à sociedade e operam sem freios, repetindo a lógica que antecedeu a crise financeira de 2008

Fonte: Revista Fórum

Avida cotidiana da grande maioria da população nunca esteve tão ligada a sistemas digitais, e essa interconexão crescente, paradoxalmente, tem se traduzido em uma vulnerabilidade e insegurança sem precedentes para os usuários. De grandes vazamentos de dados, como o da Equifax em 2017, a falhas cibernéticas recentes em gigantes do varejo, como a britânica Marks & Spencer, a fragilidade das operações comerciais e dos dados na internet é uma realidade difícil de negar.

Diante desse cenário, o professor Associado de Sociologia da Universidade de Calgary, Dean Curran, lança um alerta ainda mais grave: há um risco sistêmico que está sendo ignorado, e a inação pode perdurar “até que surja uma crise massiva em toda a sociedade”.

Para Curran, o problema reside na própria estrutura de poder da nova economia. As corporações que dominam o cenário digital, com suas plataformas de comunicação e novas formas de inteligência artificial, operam sob uma lógica de transferência de responsabilidade. Ele classifica essa dinâmica como um ato de alto risco social.

“As empresas que dominam a economia digital continuam a realizar um experimento social massivo, no qual retêm a maior parte dos benefícios enquanto transferem os riscos para a sociedade como um todo”, pontua o sociólogo, em artigo publicado no The Conversation. “Isso pode levar a uma crise digital sistêmica, que varia desde uma falha generalizada da infraestrutura básica, como eletricidade ou telecomunicações, devido a um ataque cibernético, até um ataque que modifica a infraestrutura existente, tornando-a perigosa.”

Riscos da economia digital

Apesar da magnitude do perigo, as abordagens atuais para lidar com a inovação e o risco digital são fundamentalmente falhas. Curran aponta para uma miopia regulatória e política. Para ele, “os governos geralmente são incapazes de distinguir entre o que são contribuições realmente valiosas para a sociedade e o que é intensamente prejudicial socialmente”.

Essa trajetória de risco na economia digital encontra paralelos sombrios com o período que antecedeu a crise financeira de 2008. O que se observa hoje no mundo digital, assim como se via no setor financeiro antes do colapso, é o fenômeno que o sociólogo estadunidense Charles Perrow denominou de “acoplamento estreito”.

“Perrow argumenta que, quando os sistemas apresentam altos níveis de interconexão sem redundância suficiente para compensar falhas, isso pode levar a consequências catastróficas”, aponta Curran. “Da mesma forma, altos níveis de complexidade são geralmente considerados fatores que tornam os sistemas altamente interconectados mais arriscados. Riscos e conexões imprevistos podem levar a falhas em cascata por todo o sistema.”

IA intensifica vulnerabilidades

Os sinais de alerta, ao contrário do que ocorreu antes de 2008, estão escancarados. Ataques de malware como o WannaCry e o NotPetya, em 2017, causaram prejuízos bilionários, e falhas recentes, como a da CrowdStrike em 2024, chegaram a cancelar milhares de voos e tirar emissoras de televisão do ar. Esses incidentes, somados à onda constante de ransomware e vazamentos de dados, são indicadores claros de um sistema “extremamente frágil”.

A situação é agravada pela Inteligência Artificial. “A IA intensificou muitas dessas vulnerabilidades, além de adicionar novos riscos, como alucinações induzidas por IA e o crescimento exponencial da desinformação. Espera-se que a velocidade e a escala da IA ??agravem os riscos já existentes à confidencialidade, à integridade e à disponibilidade dos sistemas”, pontua.

“Existe um risco sistêmico enorme, que não é abordado diretamente, e os processos que agravam esses riscos continuam a acelerar”, diz ainda Curran. Isso revela um problema mais profundo na política contemporânea, para o pesquisador: a dificuldade em prevenir a próxima crise, limitando-se a tentar regular apenas depois que o dano já foi consumado.

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