Brasil e os Semicondutores: A Hora da Soberania Tecnológica, por Luís Nassif
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Possuimos todas as condições para dominar cada etapa da cadeia produtiva de chips. O desafio? Organização, visão de longo prazo e ousadia.
Fonte: Jornal GGN
O Brasil está diante de uma oportunidade histórica para se tornar protagonista na indústria global de semicondutores. Segundo o professor Marcelo Zuffo, diretor do InovaUSP e referência em engenharia eletrônica, o país possui todas as condições para dominar cada etapa da cadeia produtiva de chips. O desafio? Organização, visão de longo prazo e ousadia.
Em entrevista ao Projeto Brasil, Zuffo ofereceu uma visão abrangente sobre a cadeia produtiva do chip, enfatizando a importância crucial da demanda qualificada (aplicação) como ponto de partida para o desenvolvimento dessa indústria no Brasil.
A Premissa Fundamental: “Chip é Demanda”
A ideia central apresentada é que “Chip é demanda”. Não adianta construir uma fábrica de chips se não houver uma demanda qualificada e robusta para esses produtos. A indústria de chips hoje é complexa e possui espaços bem definidos; entrar em mercados como o automotivo ou de smartphones é extremamente difícil sem um forte apoio governamental, como o que os Estados Unidos estão dando à Intel.
Demanda Qualificada (Aplicação) no Brasil
O Brasil gasta 50 bilhões de dólares por ano em demanda por chips. Embora o consumo brasileiro represente de 2% a 5% do consumo mundial de tecnologia, o que é cerca de 10 vezes menor que a demanda norte-americana, é uma demanda significativa que poderia sustentar uma indústria local sem os riscos geopolíticos de outras regiões.
Oportunidades e Desafios para o Brasil
Zuffo aponta para uma “Guerra Fria 2.0” e a reestruturação das cadeias globais como uma grande oportunidade para o Brasil. Há um consenso de que as vantagens do Brasil incluem:
- Matéria-prima: Abundância de minerais essenciais.
- Recursos humanos: Milhares de engenheiros formados, com capacidade reconhecida mundialmente, além de uma vasta mão de obra técnica potencial através do SENAI, FATECs e institutos federais.
- Energia limpa: Uma matriz energética limpa, crucial para a produção de silício que exige muita energia.
- Água: Disponibilidade de água, ao contrário de regiões como a Califórnia.
- Estabilidade geopolítica: Ausência de terrorismo e guerra na esquina, ao contrário da Europa.
- Cérebros: Capacidade de inovação demonstrada, como na produção de ventiladores pulmonares durante a pandemia, sem falta de chips.
Cadeia Produtiva do Chip: O Passo a Passo (Iniciando pela Demanda)
A cadeia produtiva, ao ser abordada a partir da demanda, segue os seguintes passos:
- Projetar o Gadget Eletrônico (Aplicação): Começa com a concepção do produto final que atenderá a uma demanda específica, como os anéis para monitoramento cardíaco.
- Desenvolver o Software: Após o design do gadget, o software é o próximo passo. As fontes destacam que engenheiros brasileiros são altamente competentes nesta área (“um brasileiro vale uma dezena de competidores”). Há uma forte ênfase no software de código aberto (open source), como o Linux e o Android, que representa 90% do software mundial e permite o controle do destino tecnológico sem depender de grandes corporações.
- Projetar o Microprocessador: Esta é uma das grandes inovações na “guerra” entre China e EUA. A arquitetura de microprocessadores de código aberto, como o Risk 5, desenvolvida pela Berkeley, permite que países como o Brasil projetem e fabriquem seus próprios chips. A USP, com uma equipe de 35 engenheiros, já está projetando CPUs de código aberto com desempenho igual ou superior ao do mercado, incluindo criptografia para operações bancárias como o Pix. Projetar um microprocessador é uma tarefa de alta complexidade, dominada por poucas nações (cerca de dez).
- Instalar o Sistema Operacional: O sistema operacional é então integrado ao chip.
- Fabricar o Wafer: Esta é considerada uma das partes mais difíceis da cadeia. O wafer é uma lâmina de silício puro (com pureza acima de 99,999999%), sobre a qual os circuitos são gravados através de um processo chamado litografia. O Brasil tem condições de realizar essa etapa, mas precisa de organização para evitar que se torne um “elefante branco”. A litografia é uma das atividades humanas mais complexas e caras, exigindo equipamentos que custam dezenas ou centenas de milhões de dólares (como o litógrafo de 25 milhões de dólares para o Professor Zufo ou 350 milhões para a Intel). Atualmente, o Brasil não possui nenhum litógrafo industrial em operação, apenas em pesquisa universitária.
- Processar as Matérias-Primas: O Brasil possui abundância de minerais críticos para a indústria de chips, incluindo silício puro, lítio, níquel, gálio bruto e pelo menos 20% das reservas mundiais de terras raras. Empresas brasileiras como Weg e Embraer necessitam desses materiais para supermagnetos e submarinos nucleares, e poderiam se beneficiar de políticas de substituição de importações para não dependerem da China. O Brasil já foi líder mundial na produção de silício metalúrgico (33% do mercado antes da China), e possui energia e minério abundantes para isso.
Zuffo indica que o Brasil possui diversas áreas com potencial para gerar essa demanda qualificada:
- Envelhecimento da População: Um projeto em desenvolvimento na USP visa criar anéis para monitoramento cardíaco da população envelhecida. Com 20% da população brasileira (40 a 50 milhões de pessoas) potencialmente necessitando desses chips, isso representa um mercado de 40 a 50 milhões de chips por ano, avaliado em 500 milhões de dólares, um número “bem interessante”.
- Agronegócio: O Brasil alimenta quase 20% da humanidade e a segurança econômica do agronegócio depende de automação, inteligência artificial (IA) e chips para lidar com as mudanças climáticas extremas.
- Transição Energética: Esta é outra área que demanda tecnologia e chips.
- Centros de Dados (Data Centers): O Brasil está atraindo investimentos bilionários em data centers (por exemplo, o estado de São Paulo atraiu 150 bilhões de reais, ou 30 bilhões de dólares). Cerca de um terço de um data center é composto por chips, o que poderia justificar a criação de duas fábricas de chips no país.
No entanto, faltam políticas claras, um projeto de nação e consciência sobre o potencial do país. As políticas devem ser de Estado, não de governo, e devem ser mais agressivas na agregação de valor e no adensamento da cadeia. Há uma necessidade de ir além do encapsulamento de chips (onde o Brasil já possui uma dezena de empresas como Ceitec, HT Micron, Data, Multilaser) e avançar para o processamento de wafers.
A conclusão é que o Brasil tem todas as condições para fechar o ciclo da soberania tecnológica em chips, mas precisa de organização, ousad