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Eram os algoritmos os deuses dos mercados?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

14/11/2022

Imagem: Reprodução

A hegemonia dos algoritmos nos mercados financeiros criou a percepção de que os prejuízos não fazem parte da atividade econômica e financeira

por Fábio de Oliveira Ribeiro

As imensas oscilações na Bolsa de Valores provocadas pela notícia de que o teto de gastos será abandonado foi acompanhada por matérias de jornais criticando Lula por um tsunami de comentários nas redes sociais contra o presidente eleito. Os mercados querem governar o país. Portanto, é impossível não perguntar o que governa os mercados.

No passado os mercados eram governados apenas pela ganância. Mas essa era moderada pela lentidão da produção e circulação de mercadorias. Os investimentos eram feitos a longo prazo com uma espectativa de lucro que nem sempre acontecia. O prejuízo fazia parte do negócio e havia uma separação entre a esfera privada (onde os negócios são realizados) e a esfera pública (governo estatal).

A invenção do telégrafo, do telefone e dos satélites de comunicação aceleraram o processo econômico até que ele se tornou global. Mas foi o advento da computação em rede que possibilitou a criação de um abismo temporal entre os mercados financeiros e a produção e circulação de mercadorias. 

O abismo temporal entre a economia real e a representação dela nas Bolsas de Valores informatizadas aumentou à medida que os algoritmos passaram a controlar as transações financeiras   https://blog.magnetis.com.br/algoritmo-de-investimento/ . 

No final dos anos 1990, quando trabalhei numa Distribuidora de Títulos de Valores Mobiliários, os operadores do mercado financeiro ainda eram seres humanos que eventualmente cometiam erros e deviam arcar com as consequências. Naquela época,  os prejuízos decorrentes de investimentos arriscados não eram automaticamente considerados culpa do governo. 

Modelos matemáticos que automatizam operações financeiras nunca erram ou erram muito pouco. A hegemonia dos algoritmos nos mercados financeiros criou a percepção de que os prejuízos não fazem parte da atividade econômica e financeira. Na fase atual, qualquer flutuação dos mercados é geralmente atribuída aos governos. Governada por algoritmos incansáveis e demoniacamente eficientes, a esfera privada quer governar a esfera pública. 

Mercados lucram sem se importar se provocam guerras, desabastecimento, fome ou a propagação de pandemias letais https://theintercept.com/2020/04/16/banco-central-presidente-coronavirus-economia/ . Quem cuida das pessoas é o Estado e ele deve fazer isso sem se preocupar com os algoritmos que impulsionam lucros privados ns Bolsas de Valores informatizadas. 

O jornalismo deveria moderar as ambições dos mercados, mas em razão do seu modelo de financiamento já não é mais capaz de fazer isso. Nos últimos anos vários jornalistas foram transformados em apêndices biológicos dos modelos matemáticos que automatizam operações financeiras. Não só isso, o próprio jornalismo está deixando de ser uma atividade humana https://epocanegocios.globo.com/colunas/IAgora/noticia/2021/08/inteligencia-artificial-no-jornalismo-ameaca-ou-oportunidade.html . 

A ferocidade dos ataques a Lula após ele anunciar que pretende revogar o teto de gastos não são apenas resultado da derrota eleitoral do bolsonarismo ou da ambição dos mercados privados de submeter o Estado. Eles são uma consequência inevitável da algoritmização das transações financeiras e do jornalismo econômico. Todavia, o governo deve cuidar das pessoas e não dos lucros privados. Caso contrário a exclusão social irá crescer até destruir a sociedade como um todo. 

Os algoritmos e seus apêndices biológicos na Faria Lima e nos aquários dos jornais são incapazes de ver e sentir os estragos que a maximização dos lucros financeiros tem o poder de provocar a imensos contingentes populacionais. A Política existe num espaço diferente daquele que foi criado para abrigar as ambições da economia financeira. O tempo dos políticos não é e não pode ser o dos fluxos financeiros automatizados.

Dilma Rousseff foi derrubada porque não atendeu as expectativas dos mercados financeiros automatizados. Lula foi eleito porque a economia algoritmizada só conseguiu aumentar o número de miseráveis e de famintos no Brasil. Se ele for impedido de governar a curto prazo o resultado será lucrativo para os mercados. A longo prazo, porém, o que ocorrerá será uma catástrofe política sem precedentes. 

A paz social, o desenvolvimento econômico e o crescimento do comércio dependem de Inteligência Emocional do poder público e não da Inteligência Artificial criada e utilizada para maximizar lucros privados num curtíssimo espaço de tempo. Desgraçadamente, no Estado dos algoritmos não existem pessoas. Essa é a verdadeira tragédia pós-moderna. 

Os algoritmos que provocaram a guerra civil na Ucrânia não sangram, não choram e não se deslocam em massa como as populações atingidas pelas bombas. Reconstruir aquele país será mais fácil do que evitar que algo semelhante ocorra no Brasil? Essa é uma pergunta meramente retórica. Todos sabemos que a resposta é SIM. Os mercados financeiros algoritmizados e o jornalismo que automatizou a bestialidade neoliberal são Politicamente ineficientes, mas tudo indica que eles estão estruturalmente presdestinados a controlar a arena política.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Fonte: Jornal GGN

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