Notícias

Semana Mundial do Espaço: Brasil tem pesquisa espacial consolidada e já lançou satélites com colaboração internacional

08/10/2026

Reprodução

País desenvolveu satélite inteiramente nacional, mantém parceria de décadas com a China e participa de novas missões internacionais voltadas ao monitoramento ambiental e das mudanças climáticas

Fonte: Revista Fórum

Quando se fala em pesquisa espacial, a imagem que costuma vir à cabeça é a de foguetes e grandes lançamentos. Mas uma parte importante da atividade brasileira acontece longe das plataformas de lançamento: em laboratórios, centros de pesquisa e projetos que desenvolvem satélites, sensores e sistemas capazes de produzir informações sobre o próprio território.

O Brasil mantém um programa espacial estruturado e, ao longo das últimas décadas, desenvolveu satélites próprios e participou de missões em parceria com outros países. O planejamento do setor é organizado pelo Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), que estabelece as prioridades brasileiras para o período de 2022 a 2031.

Um dos exemplos mais conhecidos é o Amazonia-1, primeiro satélite de observação da Terra completamente projetado, integrado, testado e operado pelo Brasil. Desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), ele foi lançado em 28 de fevereiro de 2021, a partir da Índia.

É possível monitorar as imagens por data no catálogo de imagens espaciais.

Em fevereiro de 2026, o satélite completou cinco anos em órbita. Segundo o instituto, embora sua vida útil inicialmente prevista fosse de quatro anos, o equipamento continua operando e já havia completado mais de 26 mil órbitas. As imagens produzidas são utilizadas para monitorar biomas, áreas agrícolas, reservatórios, regiões costeiras e locais atingidos por desastres ambientais.

Parceria de quase quatro décadas com a China

Outra parte importante da trajetória espacial brasileira está no programa CBERS, sigla para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres. A iniciativa começou em 1988 e se tornou uma das principais cooperações espaciais entre Brasil e China.

Os primeiros satélites da série tiveram participação financeira diferente entre os dois países. Nos CBERS-1, 2 e 2B, o Brasil respondeu por 30% dos investimentos e a China, pelos outros 70%. A partir dos CBERS-3, 4 e 04A, a divisão passou a ser de 50% para cada país.

A cooperação também envolve desenvolvimento tecnológico. No CBERS-06, por exemplo, equipes brasileiras e chinesas trabalham conjuntamente. O módulo de serviço do satélite está sob responsabilidade brasileira, enquanto a China fornece o módulo de carga útil. Em 2025, INPE e a Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (CAST) realizaram testes de comunicação entre os sistemas.

O novo satélite terá ainda um radar de abertura sintética, tecnologia que permite obter imagens mesmo durante a noite e em condições de cobertura por nuvens, fumaça ou chuva. A característica é especialmente relevante para o monitoramento contínuo da Amazônia.

Os dados da família CBERS têm aplicações que vão muito além da pesquisa acadêmica. Segundo o INPE, as imagens são utilizadas no acompanhamento do desmatamento e das queimadas na Amazônia, no monitoramento de recursos hídricos, áreas agrícolas, expansão urbana e ocupação do solo.

Brasil e Alemanha desenvolvem satélite para medir gases de efeito estufa

A cooperação internacional brasileira no espaço também ganhou novos projetos.

Um deles é o CO2Image, desenvolvido em parceria com o Centro Aeroespacial Alemão (DLR). A missão pretende detectar e quantificar emissões de dióxido de carbono (CO?) e metano (CH?) produzidas por fontes pontuais.

Nesse projeto, o Brasil não entra apenas como usuário dos dados. O INPE será responsável pelo desenvolvimento do módulo de serviços do satélite, baseado na plataforma brasileira P100, uma nova plataforma multimissão de aproximadamente 100 quilos desenvolvida pelo instituto.

A Alemanha ficará responsável pelo módulo de carga útil, incluindo o sensor destinado ao monitoramento dos gases. O instrumento terá resolução espacial de 50 metros, enquanto outros instrumentos brasileiros planejados para esse tipo de observação trabalham com resolução da ordem de 2 quilômetros.

Para o INPE, a missão também representa uma forma de aplicar décadas de conhecimento acumulado em engenharia espacial. A P100 incorpora parte dessa experiência e foi concebida para reduzir custos e tempo de desenvolvimento de novas missões.

Próximos satélites brasileiros

Um dos novos projetos é o Amazonia-1B, associado à missão AQUAE, voltada ao monitoramento de recursos hídricos continentais e marinhos, da atmosfera e de sistemas meteorológicos. O projeto também está relacionado à cooperação internacional SABIA-Mar, desenvolvida em conjunto com a Argentina.

O lançamento do Amazonia-1B está previsto para 2027, a partir do Centro Espacial Europeu, em Kourou, na Guiana Francesa, a bordo de um foguete Vega-C.

A Agência Espacial Brasileira mantém ainda um portfólio de missões em diferentes estágios de desenvolvimento. Em 2026, a AEB atualizou o painel de acompanhamento do setor para incluir novas propostas e missões em execução dentro do PNAE.

Entre os investimentos previstos para o ano estão projetos voltados ao desenvolvimento de tecnologias espaciais. Um dos termos de execução descentralizada assinados pela AEB em 2026, por exemplo, destina R$ 1,86 milhão ao Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) para o desenvolvimento de um protótipo de voo de um motor-foguete de propelente líquido.

Pesquisa espacial com aplicações na Terra

A trajetória dos programas brasileiros mostra que a pesquisa espacial não se resume a colocar equipamentos em órbita. Satélites de observação são ferramentas para produzir informações utilizadas no acompanhamento do território, da agricultura, dos recursos hídricos, das cidades e das mudanças ambientais.

O próprio modelo adotado pelo Brasil combina desenvolvimento nacional e cooperação internacional. O Amazonia-1 foi integralmente desenvolvido no país; o CBERS é fruto de uma parceria de longa duração com a China; o CO2Image reúne tecnologia brasileira e alemã; e novas missões contam com cooperação com outros países.

Essa combinação também permite que o país desenvolva competências próprias enquanto compartilha custos, infraestrutura e conhecimento com parceiros estrangeiros.

Cadastre-se e receba e-mail com notícias do SINDPD