Entre o Mar e as Redes: Por que o Sindicalismo Nacional Precisa Despertar
Imagem: unsplash
Fonte: Fenadados
Por Márcia Honda, secretária de tecnologia da Fenadados
Vivemos um momento que pode ser classificado como histórico para o funcionalismo público brasileiro. Pela primeira vez, as pautas digitais deixaram de ser um tema de nicho técnico para ocupar, expressamente, o topo da agenda de reivindicações dos servidores federais junto ao Ministério da Gestão e da Inovação (MGI). Sob a liderança de fóruns horizontalizados como o da FONASEFE e do FONACATE, o movimento sindical começa a quebrar uma inércia histórica e encara uma verdade desconfortável, mas urgente: a tecnologia não é neutra. Ela molda, redefine e, muitas vezes, violenta a nossa vida laboral.
Enquanto no cenário internacional — especialmente na Europa — o debate sobre regulação da tecnologia no trabalho e o desenvolvimento de Inteligência Artificial soberana já se traduz em cláusulas protetivas em acordos coletivos contra a precarização e o burnout, no sindicalismo brasileiro ainda engatinhamos. Apesar de categorias como a dos bancários acumularem cicatrizes de décadas de automação e de fechamento de agências, o acúmulo do debate sobre pautas digitais no sindicalismo brasileiro ainda se encontra em estágio preliminar e intuitivo. A inovação atual está em pautar a transição digital de maneira estruturada, enxergando-a não como um avanço inevitável do progresso, mas como um novo território de disputa de classes.
Para compreender a gravidade do cenário, o sindicalismo precisa abandonar o corporativismo e olhar para além de seus tradicionais cercamentos medievais. O processo de exclusão que hoje atinge o serviço público é o mesmo que extinguiu o posto dos cobradores de ônibus com a chegada das máquinas de cartão nas catracas. Para o usuário, o sistema é ágil; para a classe trabalhadora, representa o apagamento de um processo produtivo inteiro. Para onde vão esses profissionais? Como vemos, da prensa de tipos à inteligência artificial, a tecnologia muda de nome, mas a lógica de exclusão capitalista se repete.
Neste ponto reside a responsabilidade histórica dos servidores públicos federais. Sendo responsáveis por formular políticas e homologar os requisitos de TI que alimentam estatais como Serpro e Dataprev, os servidores têm o poder de intervir diretamente na linha de produção digital. O que se conquista no setor público historicamente baliza e move o mercado privado — como testemunhamos recentemente na mobilização popular pelo fim da escala 6×1 (Movimento Vida Além do Trabalho).
Servidores são, portanto, vanguarda e assumi-la exige coragem para cobrar e tensionar o governo, mesmo quando este se alinha ao nosso próprio campo político. A defesa dos direitos conquistados com suor não aceita concessões burocráticas, pois enquanto o Ministério da Fazenda celebra a atração de investimentos privados, assistimos passivamente a big techs instalando datacenters faraônicos para dragar nossos dados soberanos para o exterior, deixando no território um rastro de impactos climáticos severos, poluição sonora e expulsão de comunidades locais, entre outros.
A construção dessa resistência exige que ergamos pontes para fora dos muros sindicais, articulando-nos dentro de uma rede pela soberania digital que envolva a academia e os movimentos populares orgânicos. E todos devem se apoderar do debate sobre as pautas digitais, pois a luta central é no campo da geopolítica e da soberania nacional, e não no da tecnologia. Deste modo, deixar essa discussão restrita aos tecnólogos é um grande erro estratégico, pois o instrumental técnico normalmente carece do acúmulo social e da visão macroestrutural que os fóruns políticos possuem.
Finalizo alertando que o sindicalismo contemporâneo corre o risco de cometer o erro do “pescador que se encanta mais com a rede do que com o mar”, recordando a célebre metáfora poética de Oswaldo Montenegro. Muitas vezes nos isolamos, deslumbrados com o brilho e a burocracia de nossas próprias estruturas (as nossas redes), esquecendo que a razão de nossa existência é a imensidão da luta de classes (o mar). Assim, convido as companheiras e os companheiros a olharem para o horizonte. Temos estruturas lindas, mas isoladas elas pouco pescam. É hora de lançarmos nossas redes juntas para que o movimento sindical recupere sua relevância histórica. O momento de agir é agora. Vamos à luta!