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Ferramentas de software livre entram no dia a dia da agricultura familia

02/01/2026

Ilustração: Caio Caldara (SGCOM/UFRJ)

Projeto de extensão da UFRJ desenvolve tecnologias abertas para organizar produção, vendas e reduzir desperdícios no campo

Fonte: Revista Fórum

Em boa parte do Brasil, a comida percorre um caminho longo antes de chegar ao prato. Entre quem planta e quem come, entram atravessadores, planilhas, prazos apertados e uma lógica de mercado que raramente favorece quem vive da terra. No centro desse percurso está a agricultura familiar, responsável por sustentar feiras, grupos de consumo e redes solidárias, enquanto enfrenta um problema pouco visível fora do campo. A organização do cotidiano.

Foi a partir dessa realidade que um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio de Janeiro começou a atuar diretamente junto a agricultores familiares, desenvolvendo ferramentas digitais pensadas para a vida real do campo, e não para as exigências do mercado. De acordo com os pesquisadores envolvidos, controlar pedidos, planejar o plantio, coordenar entregas e evitar desperdícios exige tempo, atenção e instrumentos que quase nunca chegam a quem produz.

Desde 2018, o grupo Tecnologias da Informação e Comunicação, Democracia e Movimentos Sociais atua junto a feiras agroecológicas, coletivos de consumo responsável e iniciativas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Segundo a coordenação do projeto, a proposta nunca foi digitalizar o campo de forma acrítica, mas usar software livre para enfrentar problemas concretos, respeitando o ritmo da terra, o calendário das safras e a autonomia de quem trabalha nela. A tecnologia entra como ferramenta de apoio, não como imposição.

Tecnologia nasce do território

De acordo com os integrantes do projeto, as soluções surgiram a partir de conversas prolongadas com agricultores, que relataram onde a rotina travava. Um dos gargalos mais recorrentes estava na venda. Sem instrumentos adequados, muitos produtores colhiam sem saber quanto iriam vender na semana seguinte.

Segundo os relatos reunidos pela equipe, essa falta de previsibilidade gera uma cadeia de problemas, pois há perda de alimentos, renda comprometida e trabalho desperdiçado. Produzir sem saber se haverá comprador transforma o plantio em aposta, algo insustentável para quem depende da terra para viver. O comércio agrícola não funciona como o industrial. Enquanto mercadorias podem ficar estocadas à espera do comprador, alimentos frescos têm tempo curto e precisam ser colhidos e entregues no mesmo dia.

Foi desse processo que surgiu o Sementes, um plugin de software livre criado para adaptar plataformas digitais à lógica da agricultura. Segundo os desenvolvedores a ferramenta permite que cada família colha apenas o que já foi vendido. Como consequência, o desperdício diminui, o planejamento melhora e o trabalho deixa de ser uma aposta diária.

O programa foi desenvolvido para ser usado sem conhecimento técnico avançado. Segundo a equipe, essa escolha reduz a dependência de especialistas e devolve o controle aos coletivos. Hoje, a ferramenta está presente em diferentes regiões do país, encurtando a distância entre quem produz e quem consome e fortalecendo redes locais de abastecimento.

Os efeitos aparecem nos números, mas também na vida. De acordo com os dados reunidos pelo projeto, feiras que adotaram os sistemas registraram aumento no faturamento e crescimento no número de pedidos. Grupos de consumo ampliaram sua base em poucos meses. Ainda assim, o impacto mais revelador talvez esteja no tempo economizado.

Quem utiliza a ferramenta afirma que tarefas que antes consumiam horas de planilhas, contas manuais e conferências passaram a ser resolvidas em poucos minutos. Esse tempo se traduz em menos madrugadas em claro, mais descanso e mais espaço para pensar a produção com cuidado.

Economia de tempo e aumento de renda e autonomia

Além da comercialização, o projeto avança no desenvolvimento de ferramentas para o planejamento produtivo e a organização de entregas vinculadas a políticas públicas de compra de alimentos. De acordo com os pesquisadores, a ideia é integrar produção, venda e logística em um mesmo conjunto de soluções, sempre com base no software livre e no controle direto dos agricultores sobre o que utilizam.

Ao aproximar universidade e agricultura familiar, a iniciativa mostra que inovação não se restringe a ambientes corporativos de startup, e pode surgir do diálogo com quem planta, colhe e vende todos os dias. O projeto ajuda a organizar o trabalho, fortalecer redes locais e recolocar a tecnologia em seu lugar mais honesto. Um meio para sustentar vidas, territórios e formas de existir.

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