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Uso da inteligência artificial nas escolas: entre limites e oportunidades – Por Isis Aquino

05/09/2025

Debate sobre uso de Inteligência Artificial nas escolas é urgente. Créditos: Pexels

Riscos do uso precoce da IA não podem ser ignorados: dependência tecnológica, perda de identidade textual e dificuldade de desenvolver perseverança diante de tarefas complexas. Mas a exclusão da IA também não é uma solução.

Fonte: Revista Fórum

O debate sobre o uso de inteligência artificial (IA) nas escolas é urgente e inevitável. A tecnologia já está presente no cotidiano dos alunos, seja de forma direta, quando interagem com plataformas digitais, seja de forma indireta, nos algoritmos que moldam suas experiências online. A escola, no entanto, não pode se furtar de discutir quando e como esse contato deve acontecer.

As diretrizes internacionais, como o AI Act da União Europeia e relatórios da UNESCO, recomendam que a introdução da IA no ambiente escolar só ocorra a partir dos 13 anos. Essa orientação parte de preocupações legítimas: crianças menores ainda estão consolidando habilidades cognitivas fundamentais — como raciocínio, análise e pensamento crítico — que podem ser enfraquecidas se delegarem cedo demais tarefas à tecnologia. Ao oferecer soluções prontas, a IA pode reduzir a oportunidade de aprender com os erros, de construir resiliência e de conquistar confiança em suas próprias capacidades.

Na prática, escolas do grupo Cognita têm adotado uma abordagem progressiva. Antes de qualquer interação com IA, os estudantes são preparados em três camadas: uso consciente de gadgets, compreensão de softwares e cidadania digital. Na PlayPen Cidade Jardim, em São Paulo, projetos desenvolvidos no Ensino Fundamental mostram como isso acontece.

Em um deles, alunos do 4º ano exploraram imagens rupestres geradas por IA e perceberam, a partir de erros sucessivos da ferramenta ao tentar decifrar as “mensagens”, que a tecnologia não é uma fonte segura de informação. Esse tipo de experiência é essencial para formar o olhar crítico, ensinando-os a questionar e a refletir antes de confiar em respostas automáticas.

Há ainda a preocupação com questões éticas e sociais. Em outro projeto, com os anos finais do Ensino Fundamental, também na PlayPen, estudantes vivenciaram a criação de deep fakes em ambiente controlado. A atividade, ampliada para famílias e visitantes em uma oficina escolar, permitiu compreender tanto o fascínio quanto os riscos dessa tecnologia. Desde impactos na reputação até a disseminação de notícias falsas. Dessa forma, a escola abriu espaço para que o debate sobre privacidade, autoria e manipulação digital fosse vivido de maneira concreta, preparando toda a comunidade para desafios reais.

Os riscos do uso precoce da IA não podem ser ignorados: dependência tecnológica, perda de identidade textual e dificuldade de desenvolver perseverança diante de tarefas complexas. Mas a exclusão da IA também não é uma solução. A resposta está no equilíbrio: oferecer aos estudantes uma formação sólida em cidadania digital e pensamento crítico antes da introdução prática da inteligência artificial.

O papel das escolas, portanto, não é simplesmente aderir às inovações tecnológicas, mas conduzir os alunos a uma relação ética, crítica e consciente com elas. Mais do que ensinar a usar IA, trata-se de formar cidadãos capazes de decidir quando, como e por que usá-la.

Nesse caminho, famílias e escolas precisam caminhar juntas. Limitar o contato com IA antes dos 13 anos é apenas uma parte do desafio. O essencial é manter abertas as conversas difíceis, sustentar a frustração dos jovens diante dos limites e oferecer referências sólidas para um mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial.

Isis Aquino é diretora educacional da Cognita Brasil e diretora-geral da escola Playpen Cidade Jardim.

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