BRICS Pay: o novo sistema de pagamento que deve promover revolução no sistema financeiro mundial
BRICS Pay pode ser alternativa para integrar sistemas MIR, CIPS e Pix Créditos: Pravda
Um novo capítulo na arquitetura financeira global está sendo escrito pelo Sul Global
Fonte: Revista Fórum
Um novo capítulo na arquitetura financeira global está sendo escrito. Liderado pelas nações do BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, o BRICS Pay surge como uma iniciativa ambiciosa para redesenhar as transações internacionais, reduzir a dependência do dólar americano e desafiar a hegemonia dos sistemas de pagamento ocidentais. Mais do que uma simples plataforma, ele representa um movimento estratégico em direção a uma ordem financeira multipolar.
O que é o BRICS Pay?
O BRICS Pay é um mecanismo de mensageria de pagamentos descentralizado e independente, desenvolvido em conjunto pelos países membros do bloco. Lançado em 2018 pelo Conselho de Negócios do BRICS, o sistema foi criado para permitir que transações internacionais sejam realizadas diretamente nas moedas locais dos países envolvidos, eliminando a necessidade de intermediação do dólar e de redes como a SWIFT.
O objetivo central é claro: tornar os pagamentos internacionais mais seguros, transparentes, baratos e menos burocráticos, fomentando a cooperação econômica entre nações que, juntas, representam uma fatia significativa da população e do PIB globais.
BRICS Pay: Como funciona? A tecnologia por trás da inovação
O coração tecnológico do BRICS Pay é o DCMS (Sistema de Mensageria Cross-Border Descentralizado, na sigla em inglês), desenvolvido por cientistas da Universidade Estadual de São Petersburgo, na Rússia. Diferente dos sistemas centralizados tradicionais, o DCMS opera sem um proprietário ou hub central. Cada participante gerencia seu próprio nó, o que, em tese, torna o sistema resistente a interferências externas, abusos ou controle de reservas por terceiros.
Entre suas características técnicas notáveis estão:
- Ausência de taxas obrigatórias: As transações podem ser livres de custos, cabendo aos participantes decidir se cobram ou não entre si.
- Roteamento automático: O sistema constrói automaticamente rotas entre os participantes, garantindo comunicação confiável mesmo sem conexão direta.
- Alta capacidade: Com configurações recomendadas, alega-se uma capacidade de processamento de até 20 mil mensagens por segundo.
- Transparência e segurança: As mensagens são criptografadas e assinadas digitalmente, com múltiplos mecanismos de proteção disponíveis.
Além disso, planos indicam que o código do DCMS se tornará open source após a fase de testes, um movimento que pode acelerar a adoção e a confiança na plataforma.
Por que o BRICS Pay importa?
O contexto geopolítico atual é fundamental para entender a relevância do BRICS Pay. Rússia e Irã, sob pesadas sanções econômicas dos Estados Unidos, veem no sistema uma prioridade nacional para contornar o bloqueio ao SWIFT e continuar operando financeiramente em escala global. Não por acaso, a Rússia tem sido a maior defensora do projeto.
Mas não se trata apenas de uma resposta a sanções. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, já manifestou apoio à ideia, afirmando que a ordem multipolar que buscamos se reflete no sistema financeiro internacional e chegou a sugerir até mesmo uma moeda única do BRICS — ideia que, por enquanto, não foi oficialmente adotada, como ficou claro na Declaração de Kazan de outubro de 2024.
O sistema também é visto como um vetor de inclusão financeira, facilitação do comércio e fortalecimento das moedas locais, reduzindo a exposição aos riscos cambiais e à volatilidade do dólar.
Um complemento, não uma substituição
É importante destacar que o BRICS Pay não foi concebido para substituir completamente redes como a SWIFT ou o CIPS chinês. Em vez disso, ele atua como uma ponte — um gateway de pagamento para interconectar sistemas nacionais e internacionais já existentes, diversificando as opções disponíveis e aumentando a resiliência do ecossistema de pagamentos global.
Testes realizados durante eventos como o Fórum de Negócios do BRICS em Moscou em 2024 demonstraram engajamento significativo de usuários, mostrando que a plataforma já é uma realidade em fase avançada de experimentação.
O BRICS Pay é muito mais que um projeto técnico: é uma declaração de intenções geopolíticas. Ele reflete a determinação de algumas das maiores economias emergentes do mundo em construir infraestruturas financeiras alternativas, mais adaptadas aos seus interesses e menos dependentes de sistemas controlados pelo Ocidente.
Com previsão de operacionalização total ao longo de 2025 e além, o BRICS Pay promete não apenas facilitar pagamentos, mas também acelerar a tendência global de desdolarização e reconfigurar o equilíbrio de poder no sistema financeiro internacional.