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09/10/2018
Outubro Rosa é criticada pela ineficácia e teor comercial



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Campanha incentiva a medicalização do corpo da mulher e o rastreamento indiscriminado que pode indicar falso-positivo


Nadine Nascimento


Em 2017, Unidade móvel do Hospital da Mulher no estado da Bahia realizando mamografias para mulheres a partir dos 40 anos - Créditos: Foto: Gustavo Urpia - Fotos Públicas


Em 2017, Unidade móvel do Hospital da Mulher no estado da Bahia realizando mamografias para mulheres a partir dos 40 anos / Foto: Gustavo Urpia - Fotos Públicas


Criado nos EUA na década de 1990, o movimento Outubro Rosa faz anualmente uma intensa campanha de prevenção contra o câncer de mama. Por todo o país, entidades realizam mutirões de conscientização e exames para alertar sobre a importância do diagnóstico precoce.


A iniciativa de promover a prevenção é inquestionável. A detecção precoce do câncer de mama aumenta as chances de cura da doença, que em 2016, matou 16 mil mulheres no país, segundo levantamento do Ministério da Saúde. O problema é que algumas das recomendações contrariam as evidências científicas sobre a doença e vem levantando questionamento sobre a necessidade de pessoas saudáveis serem submetidas à rotina desses exames.


Em 2017, de acordo com o governo Federal, foram realizados no SUS 4,04 milhões de mamografias de rastreamento, sendo 2,6 milhões na faixa etária prioritária preconizada pela (OMS) - 50 a 69 anos. Até o mês de julho de 2018, foram mais de 2,1 milhões de mamografias, 800 mil delas em faixas etárias distintas da preconizada.


Desmedicalizar o corpo


Para a enfermeira obstétrica Waglânia Freitas, doutora em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Outubro Rosa não deveria estar com associação restrita à mamografia. “Acredito que a campanha poderia ter um impacto melhor na saúde das mulheres se ela de fato promovesse a saúde e não o rastreio aleatório do câncer de mama. O Outubro Rosa deveria ser uma campanha para que as mulheres tomassem consciência de seu corpo, e do cuidado com sua saúde, e não para ofertar de forma indiscriminada (ou quase) mamografias em mulheres que não teriam indicação, que não estão dentro da faixa etária para isso”, afirma.


Segundo a enfermeira, que também milita pela desmedicalização do corpo das mulheres, há interesses econômicos envolvidos na Campanha Outubro Rosa, motivados pelas indústrias farmacêuticas e de tecnologia. “A oferta desses exames caríssimos mais que dobra nesse período”, compara Freitas.


Ressignificar a saúde


De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), um dos riscos da mamografia anual antes dos 50 anos é a maior chance de o exame apresentar um falso-positivo levando, assim, a uma biópsia desnecessária, além do impacto psicológico desse diagnóstico errôneo. Há evidências, inclusive, indicando que a radiação do exame pode causar câncer — o risco é pequeno, mas existe. A melhor forma de diagnóstico precoce é reportando qualquer alteração nas mamas para o médico. De acordo com o Instituto, “as mulheres devem ser orientadas sobre riscos e benefícios do rastreamento mamográfico, para que tenham o direito de decifazer ou não esse exame de rotina”.


A médica de Família e Comunidade do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, Daniela Dantas, avalia que a campanha em outubro é negativa por reforçar a necessidade de medicalização do corpo da mulher e fornecer informações que não são verdadeiras.


“Ela [campanha] reforça um paradigma de que o corpo feminino tem defeito, que ele precisa ser sempre medicado e tratado, porque ele não é tão perfeito quanto um corpo masculino. Essa é uma construção ligada ao patriarcado e machismo, e não ao real funcionamento do corpo que nasceu com útero. Mas, se usamos esse momento, em que todas estão mais atentas, para mudar o foco, desconstruir esse conceito e dar voz e lugar às verdadeiras queixas trazidas pelas mulheres; dificuldades de ciclo menstrual, sexualidade, adoecimento psíquico, violência doméstica, pode ser um momento interessante para a gente pensar e ressignificar a nossa saúde”, explica.


Eline Ethel, médica da Estratégia Saúde da Família em UBS da capital paulista, acredita que as campanhas existem em razão da falta de acesso às informações o ano inteiro.


“O Outubro Rosa existe porque não se conseguiu fazer com que as mulheres tenham as informações necessárias o ano todo. O ideal é que elas se apoderem, sim, das informações e tenham acesso irrestrito aos cuidados de sua saúde o ano inteiro. Este talvez seja o maior nó que eu vejo em relação ao Outubro Rosa. Outra crítica é em relação ao uso indiscriminado dos exames [rastreio]. Eu não posso dizer hoje que não existe uma evidência referente ao [exames de] papanicolaou e mamografia, porque existe. Agora, o modo como isso é feito e se é só no Outubro Rosa isso está ruim. O cuidado da mulher deve ser contínuo e continuado dando acesso total às informações dentro da unidade básica de saúde”, pontua a médica.


Estilo de vida


O Instituto Nacional do Câncer tem um documento com as mudanças de estilo de vida recomendadas para a prevenção da doença: controle do peso corporal, prática de exercícios físicos e mudanças na alimentação - controle no consumo de sal e alimentos processados -, assim como a redução no consumo de bebidas alcoólicas estão entre elas.


Edição: Cecília Figueiredo


Fonte: Brasil de Fato 

 



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